A razão distorcida
Crítico
comenta artigo do filósofo Renato Janine Ribeiro publicado no Mais! de 18/2, sobre a violência no Brasil
ANDREA
LOMBARDI
ESPECIAL
PARA A FOLHA
- 25/02/07
Sou
estrangeiro. Há 25 anos resolvi morar no Brasil, por achar que aqui o convívio
era decididamente mais tolerante, menos carrancudo e mais leve do que na velha
Europa. Confesso que, nesse meio tempo, nunca tinha lido um acúmulo de idéias
tão corriqueiras, brutais e potencialmente perigosas como as
contidas no artigo do Renato Janine Ribeiro (Mais! de 18/2), com outros textos,
escritos para debater o ínico e monstruoso crime, que
levou a vida do menino João, no Rio. Confesso que estava esperando uma reação
irracional, daquele Brasil profundo e recalcado: uma defesa de medidas extremas.
Confesso que imaginava (há um certo tempo) que alguém
viria a ocupar o lugar de uma extrema direita, que no Brasil nunca teve a
coagem de se apresentar de forma explícita, legítimos continuadores
de uma tradição que havia antes do golpe de 64. Fiquei surpreso e, sinceramente
indignado, pois o texto do Ribeiro nas entrelinhas pode levar à incitação ao
crime ("Quando penso que desses infanticidas, os próprios colegas da
prisão se livrarão, confesso sentir um consolo").
Sou professor numa universidade pública (fui e sou ainda colega de Ribeiro).
Mas, se ser intelectual resultar em algo parecido ao que alega em seu texto,
vou preferir abdicar de minha profissão. Pois o papel do intelectual, em minha
opinião, é apontar para um caminho na literatura e na leitura, que é o
contrário ao corriqueiro e ao banal. Existe uma ética na leitura, que defendo, pela qual os leitores (sejam docentes,
recém-alfabetizados ou alunos, sejam amadores ou apaixonados) devem exercer sua
responsabilidade sempre e novamente, tentando decifrar no texto o que está
escrito e o que está nas entrelinhas, o que é evidente e o que é recôndito, o
que é banal e o que é novo e criativo e o que, a partir do texto, em nova
leitura se possa dizer. O leitor deve ser sempre como um regente de uma
partitura: criativo e atento, apaixonado e cuidadoso. A sensibilidade e a razão
(distorcidas no artigo em questão) devem estar a serviço de uma leitura nova e
original, que defenda e abra sempre mais novos espaços de liberdade (alguns o
chamaram de livre-arbítrio, e essa definição parece ter vingado, pelo menos na
letra). Considero-me um simples leitor, e a leitura que Ribeiro fez do episódio
resulta numa acúmulo de banalidades e patentes
inverdades, desmontando a aura de intelectual que reivindica, fornecendo suas
munições a um movimento realmente reacionário, de justiceiros, de cegos
vingadores (o que vai pensar dessas idéias um aluno de um curso de ética?).
Aponto três aspectos, dos tantos problemáticos, do texto. 1. No texto há um
apelo a Deus, blasfemo para um crente, paradoxal e oportunista para um
intelectual iluminista. 2. Reitera-se uma posição brutal e perigosa, que parte
da defesa da pena de morte, para conclamar a fatos e iniciativas mais graves:
"Se não defendo a pena de morte é apenas por que acho que é pouco".
"(Eles) deveriam ter uma morte hedionda." "Torço para que, na
cadeia, os assassinos recebam sua paga." 3. Entre
as inverdades brilha: "Não vejo diferença entre eles e os nazistas".
Os nazistas optavam pelo mal, como esses assassinos. "Sei que os pobres
são honestos, mais até que os ricos". "O que vivemos não é diferente
do nazismo".
Revisão das idéias
Eu, como muitos, respeitava e gostava de Ribeiro. Respeito também que possa ter
revisto suas próprias idéias, mas julgo prudente lembrar que um obscuro
jornalista socialista na Itália resolveu inventar a mais
modernas das ditaduras reacionárias. E que havia um banal pintor de
paisagens, na Áustria, que se tornou o realizador de uma imensa arquitetura da
destruição. Respondo aqui à última das afirmações do texto, por sentir-me
diretamente atingido, pois sou de origem judaica e acredito ser o dever de
todos esclarecer as condições em que o nazismo e o
fascismo nasceram e proliferaram. Uma dessas condições foi a
queima dos livros, real e metafórica, o apelo a reações irracionais contra a
tradição humanista e erudita da Alemanha e da Europa.
O nazismo foi uma ditadura (não uma iniciativa de um homem do mal), que
cristalizou de forma monstruosa os sentimentos de medo contra o desemprego,
contra a criatividade artísticas desenfreiada
das vanguardas e de medo contra o apelo à oralidade e à liberdade do leitor,
numa nova versão do antisemitismo. A violência
crônica e brutal contra o pobre menino é provavelmente expressão de uma doença
crônica, que convive com essa nossa sociedade contemporânea, em suas
entrelinhas ou em suas entranhas. É pensando na patologia desses casos que
devem ser tratados que se justifica uma reação da sociedade, utilizando-se de
instrumentos específicos e o bom senso, como o psicanalista Renato Mezan, sensatamente sugere, em seu artigo publicado na
mesma edição do Mais!. Pois essa nossa sociedade
proclama a felicidade e vive a neurose, almeja a paz dos sentidos e não
consegue vencer o medo, a angústia e o pânico. Mas os cidadãos comuns trancados
e queimados pelo tráfico no Rio no final de 2006, o índio queimado há alguns
anos em Brasília e os linchamentos são um triste primado do Brasil e expressão
de intolerância profunda.
São índices de uma violência que sempre existiu (leia-se "Totem e
Tabu" [de Freud] ou qualquer estatística sobre estupros e violência
doméstica para ter uma confirmação). Não há solução "final" para o
problema da violência (nem para qualquer outro problema, mesmo social). Lutar
para diminuir a idade penal e defender a instituição da pena de morte mostram unicamente a dependência do mais corriqueiro e
brutal senso comum, o contrário do bom senso. Essa sociedade esconde a doença
com toda a gama de antidepressivos liderados pelo Prozac
e seus derivados. As palavras de Ribeiro soam como o equivalente ao Viagra, feito para mostrar mais roxo do que é realmente e
revelam que a idade e a preparação intelectual não necessariamente trazem
sabedoria. Não me sinto mais tão estrangeiro, não tenho certeza de que quero
ser considerado um intelectual ou um professor, mas sinto-me tão humanista e
ligado à ética quanto quando cheguei. Escolhi o Brasil, há quase um quarto de
século, por ser mais tolerante, mais aberto do que a velha Itália. Hoje quero
defender essa escolha. Penso que contra a violência, contra a pena de morte,
contra a corrupção que autoriza descrença, desengajamento,
hipocrisia e cinismo, é necessário retomar uma atitude inconformada.
Ou melhor: rebelde. Fazendo, talvez, como fizeram, há alguns anos, os ambientalistas
no Rio, que com um gesto simpático, abraçaram a Lagoa de Freitas. Declarando
talvez como há 50 anos o fazia veementemente o
fundador do situacionismo -Guy Debord-
ou [o cineasta] Pasolini, seu inconformismo com a sociedade do bem-estar e da
apatia. Protestando como em 1968, com milhões de jovens no mundo inteiro, para
chegar a gritar hoje (talvez?): "O bom senso ao poder" que ecoa o
"poder da imaginação" de então. Qualquer coisa, menos a indiferença
pós-moderna, como escreveu um autêntico intelectual carioca.
ANDREA LOMBARDI é professor de língua e literatura italianas
na Universidade Federal do RJ e membro da pós-graduação da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
18/02/2007 - 09h00
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RENATO JANINE RIBEIRO
Especial para a Folha de S.Paulo
Escrever sobre o horror em estado puro: assim vivi o convite para participar
deste número do Mais!. É insuportável pensar no crime
cometido contra o menino João Hélio. E é nisso que mais penso, nestes dias. Não
me saem da cabeça duas ou três coisas. A primeira é o sofrimento da criança. Se
há Deus, e acredito que haja, embora não necessariamente antropomorfo, como
admite Ele esse mal extremo, gratuito, crudelíssimo?
Se a alma ou o espírito tem um destino após a morte, chame-se esse de juízo
eterno ou de uma série de reencarnações, como poderá esse infeliz menino ser
recompensado pela vida que lhe foi ceifada, não apenas tão cedo, mas, além
disso, de modo tão bárbaro?
Essas são questões religiosas, ou melhor, de fé. E quanto aos assassinos? A
outra coisa que não me sai da cabeça é como devem ser punidos. Esse assunto me
faz rever posições que sempre defendi sobre (na verdade, contra) a pena de morte.
Anos atrás, me convidaram a escrever um artigo para uma revista de filosofia
contra a pena de morte. Perguntei então: mas alguém escreverá a favor? E me
responderam que era possível, por que não? Acabei escrevendo meu artigo (contra
a pena capital), mas este caso horrível me faz repensar ou, melhor, não pensar,
sentir coisas distintas, diferentes.
Se não defendo a pena de morte contra os assassinos, é apenas porque acho que é
pouco. Não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda, como a que
infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte
consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte. Todo o
discurso que conheço, e que em larga medida sustento, sobre o Estado não dever
se igualar ao criminoso, não dever matar pessoas, não dever impor sentenças
cruéis nem tortura -tudo isso entra em xeque, para
mim, diante do dado bruto que é o assassinato impiedoso.
Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a
recebam de modo demorado e sofrido. Conheci o sr. Masataka Ota, pequeno empresário cujo filho pequeno foi assassinado.
Entrevistei-o para meu programa de ética na TV Futura (episódio "Justiça e
Vingança"). Masataka perdoou os assassinos, isto
é, embora pudesse matá-los, não o fez.
Quis que fossem julgados e lamenta que já estejam soltos, poucos anos após o
crime hediondo, mas ele é um caso raro --e admirável-- em não querer se vingar,
em não querer que os assassinos sofram mais do que a pena de prisão. Confesso
que não seria a minha reação.
Quem é humano?
Penso --porque ainda consigo pensar, em meio a esse turbilhão de sentimentos--
também que há diferentes modos de impor a pena máxima. A punição com a morte se
justifica ora pela gravidade do crime cometido, ora pela descrença de que o
criminoso se possa recuperar. No caso, as duas razões comparecem. Parecem
irrecuperáveis, e seu crime é hediondo. Não vejo diferença entre eles e os nazistas.
Creio que só um insensato condenaria as execuções decretadas
Em países como os Estados Unidos, a demora na execução é ela própria uma parte
--talvez involuntária- da pena. Alguém passa 20 anos no corredor da morte, e é
executado quando já pouco tem a ver com quem foi. Na Inglaterra, antes de
abolir a pena de morte, era diferente: dois ou três meses após o crime, o
assassino era enforcado. Nos dois países, a garantia de todos os direitos de
defesa ao réu faz parte, por curioso que pareça, da
engrenagem que diz ao acusado: você terá todos os direitos, mas não escapará.
No Brasil é diferente. Não temos pena de morte, na lei. A Constituição a
proíbe. Mas provavelmente executamos mais gente que o Texas, o Irã ou a China.
É que o fazemos às escondidas. Quando penso que, desses infanticidas, os
próprios colegas de prisão se livrarão, confesso sentir um consolo. Mas há algo
hipócrita nisso.
Se as pessoas merecem morrer, e se é péssimo o Estado se igualar a quem tira a
vida de outro, por outro lado é uma tremenda hipocrisia deixar à livre
iniciativa dos presos ou aos justiceiros de esquina a tarefa de matar quem não
merece viver. Abrimos mão da responsabilidade, que pode ter uma sociedade, de
decidir --no caso, quem deve viver e quem merece morrer. Tudo isso traz
questões adicionais. É-se humano somente por se nascer com certas
características? Ou a humanidade se constrói, se conquista -e
também se perde? Alguém tem direito, só por ser bípede implume, de fazer o que
quiser sem perder direitos? A todos assiste o direito
da mais ampla defesa.
Mas, garantida esta, posso fazer o que quiser sem correr o risco da pena
última? Isto, que relato, põe em questão meu próprio papel como intelectual.
Intelectual não é apenas quem tem uma certa cultura a
mais do que alguns outros. É quem assina idéias, quem responde por elas. Tive,
na graduação, uma amiga que teve bloqueio de escrita. Mas, na verdade, ela até
fazia trabalhos --de graça-- para outros colegas. Seu bloqueio não era de
escrita, mas de assinatura. Talvez possa dizer: o cientista escreve, o
intelectual assina.
O intelectual é público. Só que, para ele cumprir seu papel público, é preciso
acreditar no que diz. Ora, quantas vezes o intelectual afirma aquilo em que não
acredita? Quantos não foram os marxistas que se calaram sobre os campos de
concentração, que eles sabiam existir? Por isso, o mínimo que devo fazer, se sou instado a opinar, é dizer o que realmente penso (ou,
então, calar-me).
Sei que a falta de perspectiva ou de futuro é o que mais leva pessoas a agirem
como os infanticidas. Sei que devemos reformar a sociedade para que todos
possam ter um futuro. Creio que isso reduzirá a violência. Mas também sei que
os pobres são honestos, mais até do que os ricos. A pobreza não é causa da falta
de humanidade. Quer isso dizer que defenderei a pena de morte, a prisão
perpétua, a redução da maioridade penal? Não sei. Não consigo, do horror que
sinto, deduzir políticas públicas, embora isso fosse desejável.
Mas há algo que é muito importante no exercício do pensamento: é que atribuamos
aos sentimentos que se apoderam de nós o seu devido peso e papel. Não posso
pensar em dissonância completa com o que sinto. A razão, sem dúvida, segura
muitas vezes as paixões desenfreadas. Quantas vezes não nos salvamos do
desespero, do desamparo, do ódio e da agressividade, apenas porque a razão nos acalma, nos contém, nos projeta o futuro?
Que crimes o amor desprezado não causaria, não fosse ele contido pela razão?
Mas isso vale quando a dissonância, insisto, não é completa. Se o que sinto e o
que digo discordam em demasia, será preciso aproximá-los. Será preciso criticar
os sentimentos pela razão --e a razão pelos sentimentos, que no fundo são o que
sustenta os valores. Valores não são provados racionalmente, são gerados de
outra forma. Afinal de contas, o que vivemos no assassínio bárbaro de João
Hélio, como meses atrás quando queimaram viva uma criança num carro, não é
diferente do nazismo.
Dizem uns que o Brasil está como o Iraque. Parece, pior que isso, que temos
algumas mini-auschwitzes espalhadas pelo território nacional.
RENATO JANINE RIBEIRO é professor de Ética e
Filosofia Política na USP e autor de, entre outros, "A Ética na
Política" (ed. Lazuli).
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